Sapato

A sala cheira a verniz e deixa-se encher pelos rumores daqueles que se encolhem numa postura reta e ideal; vestem apertos de mão asséticos e desfilam lugares-comuns, polidos e talhados ao agrado de qualquer um, qual plasticina.

— Quais são os teus sonhos de vida? — Ninguém pergunta, porque ninguém quer saber.

Encosto-me à parede e sorrio para os convidados; ai de mim afugentá-los.

Concentro-me num par de jovens que se provoca e se corteja; não os conheço, mas sei que mentem para que nessa noite se cumpram as suas vontades.

— Acompanhas-me num copo? — pergunta-me um estranho.

— Adorava, mas não dá.

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