Alcatrão
Os gritos ecoavam no quotidiano da sua infância.
Eduardo engolia o choro; sabia que se cedesse, o pai dar-lhe-ia motivos para o fazer.
Depois da surra, sentia vergonha por não ter protegido a mãe, esquecendo-se de que a sua única função naquela casa era a de ser filho; encolhia e encolhia — caracol sem casca.
O tempo arrefeceu e Eduardo cresceu; endureceu. Fixou-se naquela forma para esconder a vergonha que lhe não pertencia.
Mais tarde, o filho correu para ele; ele não se moveu. O rapaz recuou e chorou.
A culpa deixou de lhe caber, e Eduardo atou o nó.
