Geringonça
O meu avô avançou a pedra preta, tornando-a dupla. Nunca me deixava ganhar por demérito e eu sabia que era assim que ele me preparava para a vida.
Naquela mesa em que nos mantínhamos em silêncio, proferíamos palavras de amor telepaticamente. Ambos perfeccionistas, ambos poetas, entre as damas criávamos a minha herança mais bonita.
Ele sorriu, quando o venci pela primeira vez, e eu perguntei-lhe quando voltaríamos a jogar.
— Sempre que quiseres, jóinha; mesmo quando eu cá não estiver.
Acariciou-me o cabelo e eu soube que a partir desse dia só ouviria aquele epíteto de ternura na minha memória.
