O caminho para os Clássicos
O presente texto nasce de uma reflexão que surgiu num diálogo informal sobre os caminhos da formação de leitores e a rigidez do sistema de ensino literário. O cerne do que me aflige em relação a este tema reside essencialmente na dessincronização de impor obras de extrema complexidade literária e estilística — como Os Maias de Eça de Queirós, que usei como objeto da reflexão — a jovens de 16 a 18 anos, desprovidos de bagagem literária ou de hábitos de leitura consolidados. Penso que para acompanhar esta visão progressiva do ato de ler — onde o gosto se desenvolve por camadas — faça sentido atribuir julgamentos a este texto quando o concluir.
Podem, contudo fazê-lo quando entenderem, naturalmente.
Vou começar este texto com um pedido de desculpas à minha professora de Português, de quem tanto gosto, por me ter recusado a ler Os Maias quando o programa da sua disciplina me obrigava. Peço ainda mais desculpa por dizer: ainda bem que o fiz.
Decidi, aos 30 anos, quando sentia que os meus hábitos de leitura já estavam consolidados, que ia ler esta obra (por curiosidade). Há dias perguntaram-me o que estava a achar dela.
— Estou a adorar. O autor tem imenso sentido de humor, usa muito o sarcasmo e a ironia. O João da Ega, então, é um autêntico filme. E o Afonso da Maia, o avô? Um homem extraordinariamente à frente do seu tempo, ousando quebrar “o que sempre se fez”, ainda que nem sempre da melhor maneira.
A dada altura, dei por mim a pensar que o próprio Carlos da Maia tem características muito particulares. Logo em criança, desenvolveu um fascínio absoluto pela anatomia, ao ponto de esse mesmo interesse o ter levado mais tarde para a medicina. Mesmo pequenino mostrava esse interesse pelas entranhas, e os que o circundavam mostravam-se horrorizados. Ele, por sua vez, na sua pureza e foco, respondia: “que mal tem?”. E o avô, o Afonso, com a sua sabedoria pragmática, rematava algo do género: pois se gosta, porque não há ele de estudar para salvar vidas?”
É tão bom desfrutar de tudo isto nesta altura da minha vida. Mas, olhando para trás e para a realidade quase incontestável do sistema de ensino: não me parece que este seja um livro para se ler aos 16 ou 18 anos. A menos, claro, que o jovem em questão já tenha uma bagagem literária muito considerável e tenha já essa maturidade para se deparar com os clássicos e/ou grandes contemporâneos.
Claro que não seria inédito, mas não é, de todo, a norma.
Agrada-me pensar no gosto pela leitura como um “caminho que se faz caminhando” (António Machado).
Quando se começa a ler, tende-se a procurar literatura de entretenimento para poder imaginar cenários, viver outras vidas, sonhar.
Eventualmente, alguns desses livros que entretêm, acabam por nos invocar sentimentos.
Quando nos permitimos mergulhar nesses sentimentos, o corpo, física e emocionalmente, cria-lhes habituação; o que antes nos preenchia passa a saber a pouco, e então começamos, gradualmente, a procurar sensações mais complexas.
É precisamente nestas obras literárias, nas quais se exploram os grandes temas da Humanidade, que encontramos as emoções que o nosso corpo passou a exigir.
Procuramos frases que nos marcam — quer pela forma como estão belissimamente construídas, quer seja pela forma como soam e ressoam dentro de nós — e é a partir daí que se gera a simbiose entre o nosso ser e a literatura dos seres que o expressaram antes de nós.
É aí que passamos a querer perceber as palavras do autor, o que ele sentia e o que pretendia transmitir com determinado texto.
Claro que não posso falar por todos, mas no meu caso, o percurso tem sido nesta linha.
Além disso, como também me dedico à arte da escrita, acabo por procurar as várias formas que existem para descrever aquilo que se sente, algures no infinito que habita em nós.
Atrevo-me então a dizer que espetar com Os Maias a quem, na maior parte das vezes, nem sabe se gosta de ler, é matar o leitor.
Pior, é matar a obra!
(acreditem quando vos digo que a maior parte das pessoas que conheço — entenda-se, adultos —, não quer sequer ouvir falar de Eça de Queiroz. Isto é gritante!)
Se me permitirem, vou só um pouco mais longe nesta análise.
Da mesma maneira que, no ensino secundário, existem opções distintas consoante o perfil do aluno — temos Matemática A, Matemática B e MACS, por exemplo —, em Português poderia ser interessante distinguir níveis de exigência diferenciados no que toca à leitura e ao estudo das obras.
Se um aluno quiser eventualmente seguir a área das Letras ou Estudos Literários, faz todo o sentido aproximar-se e confrontar-se com esses grandes clássicos (e mesmo assim, parece-me fácil encontrar-se clássicos mais acessíveis a um jovem do que a escrita de Eça de Queiroz); mas se o estudante está numa área de Ciências e Tecnologias, ou em Economia, talvez faça mais sentido que esse contacto com a leitura seja feita com outro tipo de obras: textos que mantivessem uma inegável qualidade literária, mas que incentivassem o gosto pela leitura de um jovem “típico” em vez de o afastar desta arte tão bela.
Isto tudo para dizer que: sim, estou a adorar ler Os Maias neste momento da minha vida. Mas ainda bem que não o li quando era “obrigatório”.
