Era para ter sido sobre Luto.

Tendemos a falar de luto somente quando perdemos, na esfera física, alguém que amamos.

Creio que é importante recordarmo-nos de que não são só pessoas/seres vivos que morrem; também podem morrer rotinas, sentimentos, laços, relações, ciclos, pensamentos, crenças, versões de nós mesmos, tudo…

Tudo morre todos os dias; pelo menos para mim.

E consciencializando-me de que qualquer coisa pode morrer a qualquer momento, fico presa entre o luto da perda e a gratidão por ter tido tudo o que perdi; bom, ou mau.

Desde que tive o acidente rodoviário em agosto de 2024 que tenho sido confrontada com partes de mim e da minha história que permaneciam guardadas num lugar muito escondido do meu subconsciente e com o qual, até há bem pouco tempo, não me tinha permitido enfrentar, por não lhes conseguir compreender os “porquês”, nem os “para quês”.

Num dos vários dias em que disse à minha psicóloga:

— (…) mas pronto, eu sou esquisita, as pessoas normais não pensam assim.

Ela respondeu-me:

— Ainda não consegui perceber ao que te referes quando dizes que és esquisita.

Hoje já temos respostas para esta minha crise existencial (Autismo + PHDA), mas na altura também não sabia o que lhe responder. Só sabia que existia uma barreira quase invisível entre mim e o resto do mundo “normal” (entenda-se, neurotípico). Sabia que as minhas palavras e formas de expressão tinham de ser constantemente ensaiadas, programadas, medidas e transmitidas de forma a que fossem socialmente aceitáveis; ainda assim, e com todo o esforço que esse cuidado exigia, deparava-me (e continuo a deparar-me) constantemente com o pensamento: Demasiado “esquisita” para os “normais”; demasiado “normal” para os “esquisitos”.

Apesar de hoje, após anos de modelagem, ter mais facilidade em conseguir integrar-me e cumprir com o que esperam de mim, não posso esconder que, enquanto cresci, estes processos foram muito mais desgastantes e muito mais dolorosos, salvo duas exceções: a minha família direta e os meus professores/mentores.

A minha família direta, porque me amam, porque me reconhecem e porque me vêem.

Os professores/mentores, porque eu adoro aprender (a um nível demasiado absurdo, permitam-me a expressão).
E agora, pergunto-vos eu: qual é o professor que não gosta de alunos que gostam de aprender? Que me lembre, só conheci uma, mas para analisarmos esse caso teríamos de iniciar um debate sobre o que significa ser-se professor e acho que isso daria material para um outro texto que não este.
Acontece que, por esse motivo, sempre tive um contacto relativamente próximo com os vários professores que me têm vindo a acompanhar, e (salvo raras exceções) tenho o luxo de poder dizer que este foi marcado por pessoas que ainda hoje trago no coração, que me marcaram profundamente e que continuam a acompanhar a minha jornada pessoal, profissional e académica. Acredito profundamente que cada um deles me transformou e não é possível não sermos gratos a quem nos transforma; eu, pelo menos, gosto da pessoa que sou. E sou-o, também, porque me tornei.

Dito isto: esta minha sede por conhecimento e por questionar (o mundo, a vida, a história, e tudo o mais) fazia com que fosse relativamente fácil sobrevalorizarem-me na escola, ou, sendo ainda mais direta, subvalorizarem os restantes colegas.
Quero ser clara numa coisa antes de prosseguir: as crianças… são crianças! Ponto.

Nenhuma criança gosta de se sentir subvalorizada (creio que ninguém gosta, criança ou não, mas digam-me de vossa justiça, já que não posso falar por todos). E é claro que nada justifica certos comportamentos, mas novamente: uma criança é uma criança — a experienciar o mundo pela primeira vez, a cometer erros, algumas com problemas familiares , outras com outro tipo de problemas, sabemos lá nós quais.
Sim, adultos, as crianças também têm problemas, apesar de se gostar de apregoar o contrário (o tema do idadismo também vai ter de ficar para uma outra reflexão que não esta). A Laura de 10 anos, no entanto, fez uma promessa a si mesma de que nunca deixaria que a Laura adulta se esquecesse do quão difícil é ser-se criança (eu sempre levei as minhas promessas muito a sério, principalmente quando são feitas a uma criança).
Se pensarmos de um ponto de vista emocional (notando que não tenho qualquer formação na área e corrijam-me se estiver errada) as crianças e os adolescentes tendem a apresentar uma vulnerabilidade acrescida ao stress por razões biológicas e hormonais naturais do seu desenvolvimento; assim, um mesmo acontecimento pode ter um impacto emocional e fisiológico mais intenso nessas idades do que teria um adulto com mecanismos de regulação mais desenvolvidos.

Perdoem-me, vou deixar de enrolar e vou direta ao ponto a que quero chegar:

Além das minhas dificuldades em entrar nas brincadeiras dos meus colegas e nunca saber como falar com eles porque, simplesmente, não falávamos a mesma língua — eu falava e eles não percebiam; eles falavam e eu não percebia — os meus colegas não gostavam que os professores me estivessem sempre a elogiar. Não gostavam quando eu participava nas aulas. Não gostavam quando os professores diziam, nas reuniões de pais, que eles deviam seguir o meu exemplo. Não gostavam que eu terminasse as tarefas antes da hora prevista e sem erros. Não gostavam que os meus trabalhos de casa não precisassem de correções e que eu fosse chamada ao quadro para mostrar como fiz os exercícios. Muito menos gostavam quando diziam que eu tinha de fazer testes de QI, porque podia precisar de adaptação curricular. E sempre que alguma destas coisas acontecia (e elas aconteciam várias vezes por dia)… enfim, não há necessidade de vos estar aqui a atormentar; foi o que foi e já passou.

Aos 10 anos jurei que tudo seria diferente e cheguei à minha primeira epifania: já não seria estranho se eu me sentasse num lugar diferente da sala de aula porque teria professores novos que não sabiam onde eu me costumava sentar no 1º ciclo, e então comecei a sentar-me nas filas de trás. Porquê? Porque me lembrei da razão que me levava a querer estar sempre nas filas da frente: se assim não fosse, perdia-me no mundo e no espaço e, como era (e sou) obcecada por aprender, quis garantir que isso não acontecia quando os professores, aqueles seres fascinantes e sábios, falavam.
A lógica da tal epifania foi a seguinte: se eu não conseguir prestar atenção, já não vou ter tão boas notas; se eu não tiver tão boas notas já não me vão fazer mal.
O plano foi perfeito só até os professores, que eram muito bons, se aperceberem de que eu, naquelas condições, não conseguiria prestar atenção e mudaram-me novamente para os lugares da frente.
Passei a ter dois desafios: não me deixar fascinar pelo que os professores diziam e esforçar-me para que eles não reparassem nessa minha missão (a maior parte das vezes, mal sucedida).
As notas também não podiam ser más, porque levantaria suspeitas tendo em conta os resultados que sempre tinha tido e então acrescentou-se um terceiro desafio: permitir-me absorver somente o necessário para continuar a ter notas muito boas para agradar em casa, mas não tão boas que fossem superiores às dos meus colegas da minha turma do 1º ciclo (isso era imperativo, porque, apesar de estar numa turma diferente, continuávamos na mesma escola e as ameaças persistiam).
Para que eu pudesse corresponder a estes três desafios que se me impunham, comecei a fragmentar-me em várias personas: uma para tentar fazer amigos (consegui uma, que é a minha melhor amiga há 20 anos); uma para os professores; uma para o recreio; uma em casa; e uma sozinha.
Foi então que aprendi a dissociar-me: cada vez que o contexto mudava, eu tinha de “matar” a persona anterior para que a “adequada” pudesse existir. A minha persona sola vivia, assim, em luto, pelos seus vários fragmentos de puzzles que nunca encaixavam entre si, nem com o resto do mundo.
Percebi rapidamente que para conseguir fazer amigos, precisava de criar mais personas porque, apesar de já se saber que não é possível agradar a gregos e a troianos, eu não agradava – de todo -, a não ser à minha melhor – e única – amiga.

Acrescentou-se então uma nova epifania: se eu já tinha um fascínio por aprender (fosse o que fosse), quando comecei a especificar esse meu fascínio para o comportamento humano, podem imaginar a loucura, certo?
Aos 11 anos comecei a ler sobre a teoria das funções cognitivas de Carl Jung e sobre linguagem não verbal. Aprendi muita coisa sobre as “pessoas normais” e sobre o que elas percecionam como “normal”; observei as pessoas à minha volta e como elas se comportavam; treinei em frente ao espelho das casas de banho da escola vezes e vezes sem conta, para conseguir aproximar-me dessas perceções.
Na escola, já não havia nada a fazer, mas adotei essas estratégias noutros ambientes: no Conservatório, na ginástica acrobática, e nas milhares de outras atividades que eu queria frequentar porque tudo era fascinante e eu tinha de abrilhantar a vida que eu via já com pouca cor.

Lentamente, fui deixando de ser… eu.
Algures no caminho perdi-me nas milhares de personas que criei, uma para cada pessoa que me conhece.
Algures no caminho aceitei que viveria sempre em luto, por todas as Lauras que “matava”. Apeguei-me e tornei-me dependente de pessoas que me destruíam porque se também as perdesse, tinha de assumir que o esforço da persona que criei especificamente para essas pessoas e que eu tantas vezes matara e ressuscitara tinha sido, enfim, em vão.
Mas é precisamente aqui que a questão se inverte:
Tudo morre todos os dias; mas mais importante do que isso,

Tudo renasce todos os dias; mas foi só desde que tive o meu acidente, que comecei a renascer todos os dias, novamente em direção a mim, e já há luz.

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6 Comments

  1. Lá está, aceitar é o caminho mais certo para a nossa sanidade mental. E assim como aceitas a perda também sabes que ela pode ser a porta para a luz.

  2. Tão difícil é sermos nós próprios! Isto é o que faz termos que viver em função do que os outros querem que nós sejamos, em vez de nos remetermos a viver em prol das nossas vontades e verdades. Ser criança é difícil. Ser adolescente é bárbaro. Mas ser adulto é a continuação de uma história que pode nem sempre ter sido feliz, mas que pode ter variadissímos finais, tudo depende do que em uma certa altura escolhermos, sermos nós próprios ou continuarmos a representar.

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