A viagem

[Deito-me e sei para o que vou.

«Paz… calma…»,

repete uma voz
ondular,
entre vibrações 
agudas e graves
que me agarram;
embalam.]

A tua, 
vinda da minha memória, 
penetra o ciclo de cura.

Estranho-te, 
entranho-te…

Quero dissecar-te,
compreender como se pode
ser assim:
igual e díspar.

Estimulante e segura.

Analiso a métrica 
entre o que dizes 
e o que fazes.

Desconfio da consistência;
procuro a falha 
que falhas ao não falhar.

Ainda assim,
estranho-te;
aguardo pelo dia
em que me abandonarás…

… ou capturar-me-ás?

Nunca o fazes,
provas-me errada.

Sucessivamente.

Perdoa-me pela injustiça
de não te crer.

[Sou obediente,
sigo as instruções 
da voz ondular.

Fecho os olhos e desço à memória
do passado que ficou por contar.

Mas tenho medo,
quero fugir da intrusão.

«Paz… calma…»

O ruído do ar condicionado pouco interfere
com o que surge atrás das minhas pálpebras
pesadas e molhadas.]

Movimentos sinuosos
de corpos que se tocam 
sem consentimento.

As minhas mãos embaladas
fecham portas
e tapam-me os olhos 
para que não a veja.

«Paz… calma…»

Estou profundamente imersa,
mas conscientemente…

[O maxilar está trancado,
Propriocepção em colapso.

Ouvir-se-á a minha mente? 

«Paz… calma…»]

Procuro ruído na tua ternura.

Analiso-te,
meço as variação de tom 
quando me dizes que gostavas 
que a minha forma de viver
fosse mais leve;

que eu fosse mais livre.

Creio-te, até ao dia
em que deixo de te crer.

Espero que o padrão
se repita;
que nos viciemos

…, mas a tua estrutura não vacila.

Como é que não vacilas?

Como é que se consegue ser
firme,
terna,
séria,
doce,
fria,
e segura,
sem que se abdique 
da dor de se ser,
e da felicidade 
de contribuir?

Encolho os ombros,
esquivo-me ao peso de ser vista;

livrai-me de ser invadida.

Até que mais uma vez 
me mostras que não preciso 
de te salvar a vida 

para ter direito à minha.

[«A despertar completamente»,
diz a voz.]

As estações têm agora
as cores que devem ter.

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